Telefone sem fio
Já repararam como tem notícias que o povo gosta mais? As de morte, por exemplo, são repassadas com uma velocidade quase igual a da luz.
E foi o que aconteceu semana passada. Eu estava em Curitiba e recebo a triste notícia de que um colega havia falecido. Passei a noite pensando coisas como “meu Deus, ele era tão novo!” E dormi com a imagem do meu amigo em mente.
Assim que pude, verifiquei as causas do falecimento que descobri ser acidental. Os amigos indignados, o pessoal surpreso e a notícia correndo...
Eu mesma pude repassar o fato para uma pessoa que também desconhecia que o fulano de tal tinha morrido. A surpresa era inevitável. “Ai, tou quase chorando...”.
As pessoas trocando telefonemas, mensagens de celular e tudo o mais para saberem ao certo o que mesmo tinha acontecido.
Eis que ontem, como todas as noites, entro em meu ônibus para voltar para casa e tal é a minha surpresa ao ver alguém muito parecido com o meu amigo no ônibus estacionado em frente ao meu. “Apenas alguém parecido”, pensei.
Mas aquilo ficou martelando a minha cabeça e eu não conseguia deixar de fitar o sósia do meu amigo, ali sentado e tão parecido com ele. Até que o clone em questão olhou para mim e me deu tchau. Pronto. Quase enfartei. Por sorte eu estava acompanhada e me disseram que havia mesmo alguém me dando tchau, que não era um fantasma.
A minha vontade era a de descer do meu ônibus e ir até ele dizendo algo do tipo “perae, você morreu!”.
Só não fiz isso porque minha condução foi mais rápida do que eu e saiu logo do terminal de ônibus.
Desconsiderei qualquer relação com o horário e, assim que cheguei em casa, telefonei para alguns amigos que me explicaram o acontecido.
O morto não morreu.
Ao menos não o nosso morto. Quem morreu foi um primo dele e alguém ouviu a informação e confundiu os falecidos, confundiu a informação, passou a diante que outra pessoa havia morrido e, num Deus-nos-acuda simples, todos ficaram sabendo da morte do primo do morto.
Rezamos em vão...
Sim, sim, estou feliz por saber que o morto é, na verdade, vivo.
Morto-vivo, já dizia a brincadeira...
E o povo, como bom dramático que é, ficou até meio decepcionado. “Puxa, ele não morreu...”.
Coisas estranhas. Tudo uma confusão. E as notícias correndo. E tem gente que ainda nem sabe que o morto tinha morrido e gente que não sabe que o morto está vivo...
Uma confusão sem tamanho.
Sei que eu, que fiquei sabendo ontem que o fulano estava vivo, quase morri de susto.
Eu disse QUASE. Não vão sair por aí espalhando que “a Daiana, aquela do cabelo enrolado, que usava óculos, lembra? Então, morreu! E, parece que foi de susto...”.
Retrato
Eu poderia passar o dia
E a noite
E a madrugada
Olhando esse retrato
Olhando você
Sem estar com você
Ah, eu poderia ficar horas
Com essa foto em mãos
Analisando os fios dos seus cabelos
E o desenho de sua boca
Eu ficaria dias sem precisar sair de casa
Sem precisar trocar de roupa
Sem precisar de telefone
Eu ficaria dias olhando essa fotografia
Minha mente viaja quando olho você
E você, alí congelado num pedaço de papel
Com o sorriso mudo
E com os olhos sempre abertos
Não acharia ruim que eu o fitasse com tamanha teimosia
Eu poderia congelar o tempo
O tempo poderia ser congelado
Ou se congelar
E o seu retrato estaria alí parado
Parado no tempo
Parado em minhas mãos
E se o tempo parasse
Estaríamos no mesmo posto
Congelados
Você em retrato
Eu em transe
E o resto no vácuo
Doce ilusão a minha
Se tenho seu sorriso em mãos
Suas costeletas
Seus olhos
Sua boca
Seu pescoço
Em mãos e tão distante
É preciso ao menos um retrato
Para que meu sonho não seja tão irreal
E para que estejamos perto
Ah, eu poderia ficar dias e noite e madrugadas...
Sozinha
Sorrindo
E chorando
A olhar o seu retrato...
(Daiana Geremias)
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